Qual é a aparência do homem mais feliz do mundo? Com certeza ele não se parece comigo. Ele parece com isso. Seu nome é Matthieu Ricard. Então como você se torna o homem mais feliz do mundo?Acontece que existe uma forma de medir felicidade no cérebro. E você faz isso medindo a ativação relativa do córtex pré-frontal esquerdo na IRMF, contra o córtex pré-frontal direito. E a medida da felicidade de Matthieu é acima de qualquer padrão. Ele é de longe o homem mais feliz já medido pela ciência. O que nos leva a perguntar: O que ele estava pensando enquanto estava sendo medido? Talvez algo indecente. (Risos) Na verdade, ele estava meditando sobre compaixão. A própria experiência de Matthieu é que compaixão é o estado mais feliz que existe.

Ler sobre Matthieu foi um dos grandes momentos cruciais da minha vida. Meu sonho é criar as condições para alcançar a paz mundial durante minha vida – e fazer isso criando as condições para ter paz interior e compaixão em uma escala global. E aprender sobre o Matthieu me deu uma novo forma de olhar meu trabalho. O scan do cérebro do Mattieu mostra que compaixão não é uma tarefa. Compaixão é algo que cria felicidade. Compaixão é divertida. E essa reflexão incrível muda todo o jogo. Porque se compaixão fosse uma tarefa ninguém a faria, exceto o Dalai Lama ou alguém parecido. Porém, se a compaixão é divertida todos vão querer praticá-la. Assim, para criar as condiçoes que levam à compaixão em nível global, tudo que temos que fazer é redefinir compaixão como algo divertido.

Mas ser divertido não é o suficiente. E se compaixão também fosse lucrativa? E se compaixão também fosse boa para os negócios? Então, todos os chefes, e todos os gerentes do mundo vão querer ter compaixão – desta forma. Isto criaria as condiçoes para a paz mundial. Então, comecei a prestar atenção ao significado de compaixão no ambiente dos negócios. Por sorte, não tive que olhar muito longe. Porque estava diante dos meus olhos no Google, na minha empresa.

Sei que existem outras empresas compassivas pelo mundo mas conheço o Google porque trabalho lá há 10 anos, então vou usar o Google como estudo de caso. O Google é uma empresa nascida do idealismo. É uma empresa que vive de idealismo. E talvez por causa disso, a compaixão é orgânica e distribuída por toda a companhia. No Google, expressões de compaixão corporativa quase sempre seguem o mesmo padrão. É um padrão meio que engraçado. Ele começa com um pequeno grupo de Googlers tomando a iniciativa de fazer algo. E eles geralmente não pedem permissão. Eles apenas vão em frente e fazem, e outros Googlers se juntam, e isso começa a crescer e crescer. E às vezes isso fica grande o suficiente para se tornar oficial. Em outras palavras, isso quase sempre começa nas bases.

Vou dar alguns exemplos. O primeiro é o maior evento comunitário anual – onde Googlers do mundo inteiro doam seu trabalho para as comunidades locais – foi iniciado e organizado por três funcionáriosantes de se tornar oficial – porque se tornou grande demais. Outro exemplo, três Googlers – um cozinheiro, um engenheiro e, curiosamente, um massagista – souberam de uma região na Índia onde 200 mil pessoas vivem sem nenhum posto de saúde. Então o que eles fazem? Eles se mobilizam para arrecadar fundos. E eles arrecadaram dinheiro suficiente para construir esse hospital – o primeiro hospital desse tipo para 200 mil pessoas. Durante o terremoto do Haiti, vários engenheiros e gerentes de produção se juntaram espontaneamente e passaram noites construindo uma ferramenta que permitisse que as vítimas de terremotos encontrassem seus entes queridos. E expressões de compaixão também são encontradas em nossos escritórios internacionais.

Na China, por exemplo, um funcionário de nível médio iniciou a maior competição de ações sociais na China envolvendo mais de mil escolas – trabalhando em áreas como educação, pobreza, saúde e meio ambiente. Há tantas ações sociais orgânicas por toda o Google, que a empresa decidiu formar uma equipe de responsabilidade social apenas para apoiar esses esforços. E essa ideia, novamente, veio a partir das bases, de dois Googlers que escreveram suas próprias descrições de cargo e se voluntariaram para isso. E eu acho fascinante que a equipe de responsabilidade social não foi formada como parte de alguma grande estratégia corporativa. Foi como duas pessoas dizerem: “Vamos fazer isso”, e a empresa disse: “Sim.” E por isso a Google é uma empresa compassiva pois os Googlers descobriram que compaixão é divertida.

Mas novamente, diversão não é suficiente. Há também outros benefícios corporativos concretos. E quais são? O primeiro benefício da compaixão é que cria líderes corporativos muito eficientes. O que isso significa? Há três componentes de compaixão. Há o componente afetivo, que é: “eu sinto por você.” Há componente cognitivo, que é: “eu compreendo você.” E há um componente motivacional, que é: “eu quero ajudar você.” O que isso tem a ver com liderança nas empresas? De acordo com um estudo abrangente liderado por Jim Collins, e documentado no livro “De Bom à Excelente”, é necessário um tipo de líder muito especial para levar uma empresa de boa para excelente. E ele os chama de “líderes de nível cinco”. Esses são os líderes que, além de serem altamente capacitados, possuem duas qualidades importantes, que são humildade e ambição. Esses são os líderes que são extremamente ambiciosos pelo bem maior. E por serem ambiciosos pelo bem maior, não precisam inflar seus próprios egos. De acordo com a pesquisa, eles são os melhores líderes de negócios. E ao observar essas qualidades no contexto da compaixão, encontramos que os componentes cognitivos e afetivos da compaixão –compreender e simpatizar com pessoas – inibem e diminuem o que eu chamo de auto-obsessão excessiva interna – criando assim as condições para humildade.

O componente motivacional da compaixão cria ambição pelo bem maior. Em outras palavras, a compaixão é o caminho para cultivar líderes de nível 5. E este é o primeiro benefício para os negócios. O segundo benefício atrativo da compaixão é que isso cria uma equipe inspiradora. Os empregados se inspiram mutuamente em direção ao bem maior. Isso cria uma comunidade vibrante e enérgica onde as pessoas se admiram e respeitam uns aos outros. Quero dizer, você chega no trabalho de manhã, e você trabalha com três caras que simplesmente decidem construir um hospital na Índia. Como não ficar inspirado por essas pessoas – seus próprios colegas? Então essa inspiração mútua promove colaboração, iniciativa e criatividade. Isso nos torna uma empresa altamente eficiente.

Então, após dizer tudo isso, qual é a fórmula secreta para cultivar a compaixão no cenário corporativo?Em nossa experiência, há três ingredientes. O primeiro ingrediente é criar uma cultura de preocupação apaixonada pelo bem maior. Sempre reflita, como a sua empresa e seu trabalho estão servindo o bem maior? Ou, como você pode servir ainda mais o bem maior? A consciência de servir o bem maior é muito auto-inspiradora e isso cria solo fértil para desenvolver a compaixão. Isso é o primeiro.

O segundo ingrediente é autonomia. No Google, existe muita autonomia. Um dos nossos gerentes mais populares brinca com isso, isso é o que ele diz: “Google é o lugar onde os loucos mandam no hospício.”E ele se considera um dos loucos. Se você já possui uma cultura de compaixão e idealismo, e se você deixa seus empregados livres, eles vão fazer a coisa certa da forma mais compassiva possível.

O terceiro ingrediente é focar no desenvolvimento interno e crescimento pessoal. O treinamento de liderança na Google, por exemplo, coloca muita ênfase nas qualidades internas, como autoconsciência, autocontrole, empatia e compaixão, porque acreditamos que a liderança começa com o caráter. Nós até criamos um currículo de sete semanas sobre inteligência emocional, o qual apelidamos de “Procurando Dentro de Você Mesmo”. É menos indecente do que parece. Eu sou um engenheiro por formação, mas sou um dos criadores e instrutores desse curso, o que eu acho engraçado, pois essa é uma empresa que confia em engenheiros para ensinar inteligência emocional. Que empresa!

(Risos)

“Procurando Dentro de Você Mesmo” – como isso funciona? Isso funciona em três passos. O primeiro passo é o treinar atenção. A atenção é a base de todas as habilidades cognitivas e emocionais. Qualquer currículo para treinamento de inteligência emocional precisa começar treinando atenção. A ideia aqui é treinar atenção para criar uma mente que seja calma e clara ao mesmo tempo. E isso cria a fundaçãopara inteligência emocional. O segundo passo segue o primeiro.

O segundo passo é desenvolver autoconhecimento e autocontrole. Então ao usar a atenção supercarregada do passo um, criamos uma percepção de alta resolução para os processos cognitivos e emocionais. O que isso significa? Isso significa estar apto para observar nosso fluxo mental e o processo da emoção com mais clareza, objetividade e a partir de uma perspectiva em terceira pessoa. E uma vez que você pode fazer isso, você cria o tipo de autoconhecimento que permite o autocontrole.

O terceiro passo, seguindo o segundo, é criar novos hábitos mentais. O que isso significa? Imaginem isso. Imaginem que sempre que você encontra alguém, em qualquer hora que for, seu primeiro pensamento instintivo e habitual é: “Eu quero que você seja feliz. Eu quero que você seja feliz.” Imagine que você possa fazer isso. Ao ter esse hábito, esse hábito mental, tudo muda no trabalho. Pois essa boa vontade é inconscientemente percebida por outros, e isso cria confiança, e a confiança cria boas relações de trabalho. E isso cria as condições para compaixão no ambiente de trabalho. Algum dia, esperamos divulgar gratuitamente o “Procurando Dentro de Você Mesmo” para que todos no mundo corporativo sejam capazes de usá-lo como uma referência.

E para fechar, eu quero terminar no mesmo lugar que comecei, com a felicidade. Eu quero citar esse cara – o cara de túnica, não o outro cara – o Dalai Lama, que disse: “Se você quer que os outros sejam felizes, pratique a compaixão. Se você quer ser feliz, pratique a compaixão.” Eu descobri que isso é verdade, tanto no nível individual como no nível corporativo. E eu espero que essa compaixão seja divertida e lucrativa para vocês também.

Obrigado.

(Aplausos)

Fonte: Ted
Tradução: Francisco Paulino Dubiela
Revisão: Andrea Huggard Caine Reti

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